terça-feira, 18 de fevereiro de 2014

Despedida

*Escrito em 21 de janeiro de 2014

Hoje sonhei com meu Pai pela primeira vez desde o fatídico sete de dezembro do ano que passou.

O sonho começou em 27 de janeiro de 2014, dia anterior ao que seria o do seu aniversário de 51 anos.

Tão abruptamente quanto partiu, ele retornou, no sonho. Repareceu, vivo, diante dos olhos incrédulos dos que aqui ficaram como se não houvesse passado uma hora sequer longe de nós.

Sem qualquer explicação plausível, voltou semanas depois do velório - não havia enterro no sonho. Incompreensível. Exatamente como havia sido sua partida.

O choque que seu repentino retorno nos causou foi imediatamente superado pela alegria sem precedentes de poder abraçá-lo de novo. Pela felicidade plena que poder, mais um vez, ouvir da sua voz o quanto ele nos amava nos trouxe. E principalmente por sermos capazes de lhe dizer que o amamos mais que o infinito.

No sonho, ele fazia cara de surpresa. Sequer imaginava o que havia acontecido semanas antes. Achamos melhor nem tocar no assunto. Afinal de contas, pra quê dar chance ao azar? Vai que tudo aquilo era apenas um sonho...

Ocorreu então a um de nós que dali a algumas horas seria o seu aniversário. Seria preciso correr com os preparativos daquela dupla celebração de vida.

Como que por mágica, nos deparamos com tudo pronto, lindo. Uma festa à altura de tudo de bom que ele sempre fez por todos que amou.

O salão onde estávamos foi inteiramente tomado por rostos conhecidos e queridos. A família, em êxtase, mais unida que nunca, estava lá. Os amigos, idem, como não poderia deixar de ser.

E ele inebriado de amor. Sorriso de orelha à orelha. Felicidade que transbordava. A cada abraço apertado, efusivo como só ele sabia ser, seu semblante se enchia de alegria. Era o menino treloso da Rua dos Arcos de novo, ali no meio dos seus. Desta vez, se amostrando com os três filhos, que não saíam debaixo das suas asas.

"Garçom, um cafezinho e a conta, por favor", pedia. E dessa vez, para alegria dos que o amam, ficou só no cafezinho mesmo. Do resto, não precisava mais. Até ele se espantou de como foi fácil. E se alegrou.

Exibimos um vídeo com vários momentos da vida dele. As fotos de infância -- perdidas nas enchentes que atingiram o Recife na década de 70 -- estavam misteriosamente lá. Ele chorava muito de emoção, abraçava todos. E não se cansava de agradecer.

Foi tudo muito bonito. A despedida que ele não chegou a ter. Mas teve, no sonho.

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