O Rio de Janeiro tem seus encantos. Mas café dos bons, não tem.
Certa vez comentei com você que a gente tava com dificuldade de comprar um café bom aqui no Rio, que as marcas eram diferentes das do Recife e de Salvador.
Semanas depois, voltando pro Rio de uma visita ao Recife, fiz conexão em Salvador, onde mataria as saudades de vocês, ainda que por alguns instantes, no saguão do aeroporto.
Amanda, minha amiga, havia encomendado um café Santa Clara e, esquecido como só eu sei ser, não lembrei de comprar. Perguntei se você poderia comprar pra mim, me salvar mais essa vez.
(Hoje, pensando bem, percebo que nem precisava ter perguntado. Pra você, qualquer --qualquer mesmo-- pedido de um filho era uma ordem. E você não mediria esforços para cumpri-la.)
Você apareceu, dois pacotes à mão. Missão cumprida. Pai feliz por deixar o filho feliz. E o café, delicioso.
Na outra vez que fui a Salvador, os cafés já estavam comprados. Quando minha mãe veio me visitar no Rio, trouxe na bagagem seu presente, mais cafés.
Uma aquisição trivial, cotidiana, nas suas mãos, se tornou gesto de carinho. Você transformou café em amor. E qualquer xícara de café, desde então, tem um gosto mais especial.
Hoje, quando sinto o cheiro do pó de café, chego a me arrepiar. E mato a saudade de você.
quinta-feira, 20 de fevereiro de 2014
terça-feira, 18 de fevereiro de 2014
Despedida
*Escrito em 21 de janeiro de 2014
Hoje sonhei com meu Pai pela primeira vez desde o fatídico sete de dezembro do ano que passou.
O sonho começou em 27 de janeiro de 2014, dia anterior ao que seria o do seu aniversário de 51 anos.
Tão abruptamente quanto partiu, ele retornou, no sonho. Repareceu, vivo, diante dos olhos incrédulos dos que aqui ficaram como se não houvesse passado uma hora sequer longe de nós.
Sem qualquer explicação plausível, voltou semanas depois do velório - não havia enterro no sonho. Incompreensível. Exatamente como havia sido sua partida.
O choque que seu repentino retorno nos causou foi imediatamente superado pela alegria sem precedentes de poder abraçá-lo de novo. Pela felicidade plena que poder, mais um vez, ouvir da sua voz o quanto ele nos amava nos trouxe. E principalmente por sermos capazes de lhe dizer que o amamos mais que o infinito.
No sonho, ele fazia cara de surpresa. Sequer imaginava o que havia acontecido semanas antes. Achamos melhor nem tocar no assunto. Afinal de contas, pra quê dar chance ao azar? Vai que tudo aquilo era apenas um sonho...
Ocorreu então a um de nós que dali a algumas horas seria o seu aniversário. Seria preciso correr com os preparativos daquela dupla celebração de vida.
Como que por mágica, nos deparamos com tudo pronto, lindo. Uma festa à altura de tudo de bom que ele sempre fez por todos que amou.
O salão onde estávamos foi inteiramente tomado por rostos conhecidos e queridos. A família, em êxtase, mais unida que nunca, estava lá. Os amigos, idem, como não poderia deixar de ser.
E ele inebriado de amor. Sorriso de orelha à orelha. Felicidade que transbordava. A cada abraço apertado, efusivo como só ele sabia ser, seu semblante se enchia de alegria. Era o menino treloso da Rua dos Arcos de novo, ali no meio dos seus. Desta vez, se amostrando com os três filhos, que não saíam debaixo das suas asas.
"Garçom, um cafezinho e a conta, por favor", pedia. E dessa vez, para alegria dos que o amam, ficou só no cafezinho mesmo. Do resto, não precisava mais. Até ele se espantou de como foi fácil. E se alegrou.
Exibimos um vídeo com vários momentos da vida dele. As fotos de infância -- perdidas nas enchentes que atingiram o Recife na década de 70 -- estavam misteriosamente lá. Ele chorava muito de emoção, abraçava todos. E não se cansava de agradecer.
Foi tudo muito bonito. A despedida que ele não chegou a ter. Mas teve, no sonho.
Hoje sonhei com meu Pai pela primeira vez desde o fatídico sete de dezembro do ano que passou.
O sonho começou em 27 de janeiro de 2014, dia anterior ao que seria o do seu aniversário de 51 anos.
Tão abruptamente quanto partiu, ele retornou, no sonho. Repareceu, vivo, diante dos olhos incrédulos dos que aqui ficaram como se não houvesse passado uma hora sequer longe de nós.
Sem qualquer explicação plausível, voltou semanas depois do velório - não havia enterro no sonho. Incompreensível. Exatamente como havia sido sua partida.
O choque que seu repentino retorno nos causou foi imediatamente superado pela alegria sem precedentes de poder abraçá-lo de novo. Pela felicidade plena que poder, mais um vez, ouvir da sua voz o quanto ele nos amava nos trouxe. E principalmente por sermos capazes de lhe dizer que o amamos mais que o infinito.
No sonho, ele fazia cara de surpresa. Sequer imaginava o que havia acontecido semanas antes. Achamos melhor nem tocar no assunto. Afinal de contas, pra quê dar chance ao azar? Vai que tudo aquilo era apenas um sonho...
Ocorreu então a um de nós que dali a algumas horas seria o seu aniversário. Seria preciso correr com os preparativos daquela dupla celebração de vida.
Como que por mágica, nos deparamos com tudo pronto, lindo. Uma festa à altura de tudo de bom que ele sempre fez por todos que amou.
O salão onde estávamos foi inteiramente tomado por rostos conhecidos e queridos. A família, em êxtase, mais unida que nunca, estava lá. Os amigos, idem, como não poderia deixar de ser.
E ele inebriado de amor. Sorriso de orelha à orelha. Felicidade que transbordava. A cada abraço apertado, efusivo como só ele sabia ser, seu semblante se enchia de alegria. Era o menino treloso da Rua dos Arcos de novo, ali no meio dos seus. Desta vez, se amostrando com os três filhos, que não saíam debaixo das suas asas.
"Garçom, um cafezinho e a conta, por favor", pedia. E dessa vez, para alegria dos que o amam, ficou só no cafezinho mesmo. Do resto, não precisava mais. Até ele se espantou de como foi fácil. E se alegrou.
Exibimos um vídeo com vários momentos da vida dele. As fotos de infância -- perdidas nas enchentes que atingiram o Recife na década de 70 -- estavam misteriosamente lá. Ele chorava muito de emoção, abraçava todos. E não se cansava de agradecer.
Foi tudo muito bonito. A despedida que ele não chegou a ter. Mas teve, no sonho.
segunda-feira, 17 de fevereiro de 2014
Peso
Eu adoraria poder te dar essa notícia agora.
Comecei a me cuidar, tô comendo menos e melhor, fazendo exercícios quase todos os dias e... já perdi dez quilos!
Começou quando você foi embora. Bem que poderia ter sido antes, né? Você ia ficar tão feliz... Incluiria esse feito no rol de orgulhos dos seus "Filhos Amados".
Eu percebia o quanto você ficava triste com o meu descuido, com a minha desmotivação em me cuidar. Às vezes você até falava sobre isso diretamente, mas sempre com um carinho e um cuidado explícitos pra não me machucar. Faltava em mim, para isso, a força de vontade que sobrava em outras questões.
Realmente não sei como consegui levar esse projeto adiante diante das circunstâncias em que me encontrava. Talvez tenha sido porque era uma coisa palpável a se fazer no meio do furacão de emoções que me cercava.
Ou seria uma homenagem póstuma? Me engajei nessa missão, nesse Medida Certa particular, por você ou por mim? E isso por acaso faz alguma diferença agora? Você faz parte de mim. E não pesa.
Comecei a me cuidar, tô comendo menos e melhor, fazendo exercícios quase todos os dias e... já perdi dez quilos!
Começou quando você foi embora. Bem que poderia ter sido antes, né? Você ia ficar tão feliz... Incluiria esse feito no rol de orgulhos dos seus "Filhos Amados".
Eu percebia o quanto você ficava triste com o meu descuido, com a minha desmotivação em me cuidar. Às vezes você até falava sobre isso diretamente, mas sempre com um carinho e um cuidado explícitos pra não me machucar. Faltava em mim, para isso, a força de vontade que sobrava em outras questões.
Realmente não sei como consegui levar esse projeto adiante diante das circunstâncias em que me encontrava. Talvez tenha sido porque era uma coisa palpável a se fazer no meio do furacão de emoções que me cercava.
Ou seria uma homenagem póstuma? Me engajei nessa missão, nesse Medida Certa particular, por você ou por mim? E isso por acaso faz alguma diferença agora? Você faz parte de mim. E não pesa.
sábado, 1 de fevereiro de 2014
Dirigir na chuva
Sabia que eu tava morrendo saudade de você e nem sabia
direito? Não tinha me dado conta, na verdade. É mais ou menos como aquela história de que a gente só dá o real valor
a alguma coisa ou a alguém quando perde, sabe? Mas nesse caso não é bem isso,
porque eu sabia do seu enorme valor. Valor esse que me foi legado por você com
carinho. Paciência. Amor.
Tava com saudade do seu olhar. Olhar de pai que idolatra a
cria, que faria "de um tudo" pra proteger o filhote. Olhar que abraça. Saudade das suas histórias, algumas mais engraçadas, outras menos, umas inéditas, outras
repetidas pela enésima vez, mas nunca desinteressantes. Que belo contador de
histórias você foi... Dos melhores que eu tive o prazer e a honra de conhecer.
Tenho me perguntado o que eu faria, o que eu diria se
pudesse te encontrar mais uma vez. Ai se eu soubesse! Por que eu não
te disse aquilo que eu não sei o que diria antes, hein? É uma merda ter esse
tipo de arrependimento. Ainda que hipotético. Aqui, agora, tenho absoluta
certeza, você me diria que não ficasse triste, que você sabia o quanto eu te
amo. Iria me tranquilizar. Não sossegaria até que eu ficasse bem, leve. E eu
ficaria.
Quando eu te telefonei pela última vez, naquela noite de quinta-feira, dois
dias antes de, você sabe, o assunto foi trivial. Nossa última conversa poderia
muito bem ter sido a do meio. Mas mesmo eu, que não acredito nessas coisas, não
consigo deixar de pensar sobre um suposto significado maior que aquele diálogo
final possa ter tido. Não sei se você lembra, mas te pedi conselhos sobre como
dirigir na chuva.
Eu estava na estrada, dirigindo o carro de uma amiga,
voltando pra casa depois de um dia de merda. Pra completar, o céu despencou.
Não me lembro de ter presenciado um temporal mais forte que aquele. Ao volante,
não conseguia enxergar mais que alguns metros à minha frente. A sensação era
das menos agradáveis. Procurava algum lugar seguro para parar o carro e te
ligar. Você saberia o que fazer naquela situação. Você saberia me guiar.
A salvo, em um posto de gasolina, mas ainda longe de casa, ouvi
suas didáticas orientações. Primeiro, preocupado, você disse que, se eu avaliasse que estava perigoso, eu deveria procurar um hotel e voltar no dia seguinte. Nada
faria valer a pena correr riscos desnecessários. Quando disse que esperaria a chuva parar,
você me explicou exatamente o que eu deveria fazer pra chegar bem em casa.
Senti que na sua voz havia tanto satisfação como orgulho. Seu
filho, adulto, tão confiante na sua independência, rendia-se à autoridade do pai.
Reconhecia o valor da sua experiência. Lembrando agora, penso que o valor maior daquela conversa foi o reconhecimento. Final e definitivo.
Não se preocupe, pai. Nunca vou esquecer os seus conselhos sobre como dirigir na chuva.
Não se preocupe, pai. Nunca vou esquecer os seus conselhos sobre como dirigir na chuva.
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