sábado, 1 de fevereiro de 2014

Dirigir na chuva

Sabia que eu tava morrendo saudade de você e nem sabia direito? Não tinha me dado conta, na verdade. É mais ou menos como aquela história de que a gente só dá o real valor a alguma coisa ou a alguém quando perde, sabe? Mas nesse caso não é bem isso, porque eu sabia do seu enorme valor. Valor esse que me foi legado por você com carinho. Paciência. Amor.

Tava com saudade do seu olhar. Olhar de pai que idolatra a cria, que faria "de um tudo" pra proteger o filhote. Olhar que abraça. Saudade das suas histórias, algumas mais engraçadas, outras menos, umas inéditas, outras repetidas pela enésima vez, mas nunca desinteressantes. Que belo contador de histórias você foi... Dos melhores que eu tive o prazer e a honra de conhecer.

Tenho me perguntado o que eu faria, o que eu diria se pudesse te encontrar mais uma vez. Ai se eu soubesse! Por que eu não te disse aquilo que eu não sei o que diria antes, hein? É uma merda ter esse tipo de arrependimento. Ainda que hipotético. Aqui, agora, tenho absoluta certeza, você me diria que não ficasse triste, que você sabia o quanto eu te amo. Iria me tranquilizar. Não sossegaria até que eu ficasse bem, leve. E eu ficaria.

Quando eu te telefonei pela última vez, naquela noite de quinta-feira, dois dias antes de, você sabe, o assunto foi trivial. Nossa última conversa poderia muito bem ter sido a do meio. Mas mesmo eu, que não acredito nessas coisas, não consigo deixar de pensar sobre um suposto significado maior que aquele diálogo final possa ter tido. Não sei se você lembra, mas te pedi conselhos sobre como dirigir na chuva.

Eu estava na estrada, dirigindo o carro de uma amiga, voltando pra casa depois de um dia de merda. Pra completar, o céu despencou. Não me lembro de ter presenciado um temporal mais forte que aquele. Ao volante, não conseguia enxergar mais que alguns metros à minha frente. A sensação era das menos agradáveis. Procurava algum lugar seguro para parar o carro e te ligar. Você saberia o que fazer naquela situação. Você saberia me guiar.

A salvo, em um posto de gasolina, mas ainda longe de casa, ouvi suas didáticas orientações. Primeiro, preocupado, você disse que, se eu avaliasse que estava perigoso, eu deveria procurar um hotel e voltar no dia seguinte. Nada faria valer a pena correr riscos desnecessários. Quando disse que esperaria a chuva parar, você me explicou exatamente o que eu deveria fazer pra chegar bem em casa.

Senti que na sua voz havia tanto satisfação como orgulho. Seu filho, adulto, tão confiante na sua independência, rendia-se à autoridade do pai. Reconhecia o valor da sua experiência. Lembrando agora, penso que o valor maior daquela conversa foi o reconhecimento. Final e definitivo.

Não se preocupe, pai. Nunca vou esquecer os seus conselhos sobre como dirigir na chuva.

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