Sabia que eu tava morrendo saudade de você e nem sabia
direito? Não tinha me dado conta, na verdade. É mais ou menos como aquela história de que a gente só dá o real valor
a alguma coisa ou a alguém quando perde, sabe? Mas nesse caso não é bem isso,
porque eu sabia do seu enorme valor. Valor esse que me foi legado por você com
carinho. Paciência. Amor.
Tava com saudade do seu olhar. Olhar de pai que idolatra a
cria, que faria "de um tudo" pra proteger o filhote. Olhar que abraça. Saudade das suas histórias, algumas mais engraçadas, outras menos, umas inéditas, outras
repetidas pela enésima vez, mas nunca desinteressantes. Que belo contador de
histórias você foi... Dos melhores que eu tive o prazer e a honra de conhecer.
Tenho me perguntado o que eu faria, o que eu diria se
pudesse te encontrar mais uma vez. Ai se eu soubesse! Por que eu não
te disse aquilo que eu não sei o que diria antes, hein? É uma merda ter esse
tipo de arrependimento. Ainda que hipotético. Aqui, agora, tenho absoluta
certeza, você me diria que não ficasse triste, que você sabia o quanto eu te
amo. Iria me tranquilizar. Não sossegaria até que eu ficasse bem, leve. E eu
ficaria.
Quando eu te telefonei pela última vez, naquela noite de quinta-feira, dois
dias antes de, você sabe, o assunto foi trivial. Nossa última conversa poderia
muito bem ter sido a do meio. Mas mesmo eu, que não acredito nessas coisas, não
consigo deixar de pensar sobre um suposto significado maior que aquele diálogo
final possa ter tido. Não sei se você lembra, mas te pedi conselhos sobre como
dirigir na chuva.
Eu estava na estrada, dirigindo o carro de uma amiga,
voltando pra casa depois de um dia de merda. Pra completar, o céu despencou.
Não me lembro de ter presenciado um temporal mais forte que aquele. Ao volante,
não conseguia enxergar mais que alguns metros à minha frente. A sensação era
das menos agradáveis. Procurava algum lugar seguro para parar o carro e te
ligar. Você saberia o que fazer naquela situação. Você saberia me guiar.
A salvo, em um posto de gasolina, mas ainda longe de casa, ouvi
suas didáticas orientações. Primeiro, preocupado, você disse que, se eu avaliasse que estava perigoso, eu deveria procurar um hotel e voltar no dia seguinte. Nada
faria valer a pena correr riscos desnecessários. Quando disse que esperaria a chuva parar,
você me explicou exatamente o que eu deveria fazer pra chegar bem em casa.
Senti que na sua voz havia tanto satisfação como orgulho. Seu
filho, adulto, tão confiante na sua independência, rendia-se à autoridade do pai.
Reconhecia o valor da sua experiência. Lembrando agora, penso que o valor maior daquela conversa foi o reconhecimento. Final e definitivo.
Não se preocupe, pai. Nunca vou esquecer os seus conselhos sobre como dirigir na chuva.
Não se preocupe, pai. Nunca vou esquecer os seus conselhos sobre como dirigir na chuva.
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