- Ele está vivo?
- Não.
Foi este o insólito diálogo que tive com minha mãe, por telefone, no dia 7 de dezembro de 2013, e me trouxe a notícia mais devastadora que já recebi.
Antes de fazer a pergunta fatal, havia ouvido ela contar, com a voz trêmula, tentando manter a calma, que meu pai tinha sofrido uma acidente de moto.
Dos muitos questionamentos possíveis --"como ele está?", "ele ficou muito ferido?", "ele tá no hospital?"--, já tomado pelo desespero, acabei optando pelo duro "ele está vivo?", que permitia apenas duas respostas.
Acostumado a noticiar as tragédias do cotidiano, eu não estava preparado para ouvir a confirmação da nossa tragédia particular. Para ouvi-la responder que não, ele não havia resistido. Que o meu pai estava morto.
Deixei cair o celular no sofá onde estava estirado e, cambaleante, fui ao chão, urrando de dor.
Desde criança, a morte do meu pai era um pesadelo recorrente. Acordava arrasado, mas aliviado. Ele estava vivo. Ainda assim, a ressaca era forte, como um prenúncio do que viria anos depois.
Mais de quatro meses depois, flashes dos primeiros minutos de terror me revisitam, invadem a memória como o pior dos pesadelos, para me lembrar que foi real.
Vêm à mente ainda, sem aviso, lembranças misturadas do velório, do enterro, da minha infância. Do momento que vi a última mensagem que ele me enviou e, por preguiça, adiei a resposta.
A notícia que dividiu minha vida entre antes e depois daquele dia poderia ter sido dada de milhões de outras maneiras. Foi do jeito que deu pra ser, sem firulas.